segunda-feira, 20 de agosto de 2007
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
As silabas vao acumulando no canto da boca,
Peixes na rede,
Fugidias e escorregadicas, vez ou outra
Retorcendo-se em palavras. Assim acorda a
America do Sul.
Ditadores brotam e medram pelo continente, Eta
Estirpe impertinente.
Ha que estar atento.
Carrascos espalham-se ao vento.
Eles calcarao botas de verniz, ternos riscados a giz.
Sempre havera outro momento.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
terça-feira, 3 de julho de 2007
Julho atropelou junho e me achou na Africa.
Um ar seco sibila
Serpentino narinas adentro
e estala nos pulmoes.
Tudo isso me lembra, quem diria,
A caatinga de Goias.
Sois desimpecilhados queimando
Planaltos altos e suas plantas asperas.
Mas aqui sou mulher branca
Como nunca se foi no Distrito Federal.
E como me olham os que me passam.
Tem coisas que eu devo carregar com os olhos
Que nem sei bem o que elas sao.
No fundo no fundo no fundo no fundo no fundo no fundo no fundo no fundo no fundo
(Quero dizer mas engasgo)
Sou azul de tao preta que eu sou.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Nao me perguntem
Nao sei bem de onde venho
Muito menos
Pra onde vou.
Nem sei bem quem andei sendo
Muito menos
Quem hoje sou.
E isso (estranhamente)
Me basta.
Um vento me deitou
Uma flor amarga na lingua
E me chamou ofegante, Vem
Que eu vou te mostrar
A musica que emana desta terra.
Eu encostei o ouvido no chao
Ouvi o burbulho de riachos
O ranger de engenhocas
A valsa lenta dos continentes
O cavucar dos bezouros
O espichar das raizes
Cada pedra de moenda
Ossos e ossos estalando.
Por baixo disso tudo eu ouvi
Um silencio descabido
Um vazio descomunal
Que eu nao sei se era
Um reconforto ou terror.
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Faz muito tempo que acordamos longe da nossa terra.
Em sonhos e delirios vemos a palha dos tetos das casas que foram nossas
Desaparecer por tras de montes que tinham nomes na nossa lingua.
E os cumes daqueles montes somem por tras de outros montes
Com nomes que a nossa lingua desconhecia.
Entre nos e a nossa terra ha tambem planicies aridas e vermelhas
Onde secaram as nossas bocas e os olhos de nossos filhos.
E raizes de arbustos com nomes que escorrem por nossas frontes e
Nos agarram pelos pes e nos fincam neste solo estranho.
E as solas dos nossos pes que nos trouxeram ate aqui
Elas ja nao lembram mais o caminho de volta.
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Viajar é preciso.
Viajar é preciso.
Para isso foram feitas as solas dos pés:
Para percorrer vastas distâncias desconhecidas.
E tendo-as percorrido, estes nossos bravos
Revestimentos, calejados, podem então
Voltar pra casa afinal apazigüados.
E para viajar também foram feitos os olhos:
Para vasculhar amplos horizontes alheios.
Tendo-os minado, estes nossos duplos
Mirantes, deslumbrados, afinal
Regressam prontos para o sono verdadeiro.
Mas para isso, é preciso viajar.
E é por isso também que
Há que se lançar o coração bem longe
Feito rede de pesca, guardando na mão cerrada
Apenas um punhado. Largar o resto
À deriva. Ele talvez se arrebente,
Ou talvez algo se emaranhe nele.
Enfim. Para que volte quem sabe
Um pouco mais sábio.
Um coração viajante não é indeciso.
Viajar
é preciso.
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Cartícula
Caros amigos,
Vou para a África e não sei quando volto.
(Uma vida sem fio nem meada.)
Mas a porta e a aldrava permanecem. De vez em quando acrescentarei alguma coisa neste canto. E visitarei também os seus.
Bjs
LS
Aproximação noturna da África
Tulipa incandescente,
A tua luz sibilante
Me roça a derme.
E desperta em mim
Séculos de paixões intercaladas
Com estranhas dormências. E
Minhas extremidades começam
A formigar.
E um linho branco e transparente
Estende-se sobre o continente.
Por debaixo, coisas aflitas se debatem.
Suspiros de papiros.
Solfejos de percevejos e por toda parte,
Trovoadas e lampejos.
Meu ventre vive inchado
De água feito um baobab.
Por não saber abraçar o deserto
Eu arranho o céu.
Você me fincou raízes por entre costelas
E abriu no meu tórax uma boca
De janela.
E por entre os seus dentes
O que eu enxergo é
A África.
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Aos desaparecidos
Mãe me arrancaram do teu ventre
E do teu colo meu sumido pai.
E restou de vocês só
Água na pedra.
E é por isso que tenho olhos de pixe
E esta boca de alçapão.
E minha sombra, esse escuro tão escuro
Que chega a ser escuro
De porão.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
O mar ausente
Sou toda mar, Maria sou
Cintilâncias latejantes
Orlas de ferrugem e marés vermelhas
Vomitando ondas nas pedras,
Altas incertezas como cordilheiras de água
Onde você fincou bandeiras.
E quando um oceano furioso
Engolir em sêco e se arrastar pra longe
É naquele vão prenhe e silencioso
Na areia espelhada Maria
Que eu vou me sentar.
terça-feira, 15 de maio de 2007
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Para Susana
Publicar um poema
É soltar uma alcatéia de lobos
Por campos roliços. Você
Desenterra guerreiros de terracota
Do chão branco de uma página,
Alça romances de vãos ocultos.
A cada escolha, Susana,
Você tenta tempestades do outro lado
De outras luas. Dá-nos poemas,
Editrix, para que o caos do mundo
Brote nas nossas rachaduras,
Medre pelas
Falésias que nos preenchem,
Passe e repasse por entre
Estes nossos duros dentes.
sexta-feira, 11 de maio de 2007
Disso fomos feitos: dum
Bailarino pólen.
Nanocoisas num megauniverso.
Pó de estrêla,
Restos de convulsões galáticas.
Átomos
Prótons
Quarks
Pensamentos subdivididos até a abstração.
Pontos
sem dimensão.
Cada um seu
Ponto-e-vírgula, um
Nódulo matemático.
E pra isso vivemos: em busca de redes.
Espichando-se em linhas.
Disso nascemos: Do lampejo efêmero
No branco do olhos
D’algum deus distraído.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
terça-feira, 8 de maio de 2007
Ao me espreguiçar as solas dos meus pés roçam uma supernova em plena implosão.
Eu me reviro na cama, as solas ardendo.
Depois a vejo de novo em sonho,
Íris fulminante pulsando roxa num breu gelado.
Encolhida em si.
Um núcleo tão miúdo e denso que uma colherinha apenas
Pesaria milhões de toneladas.
Eu na minha cama.
domingo, 6 de maio de 2007
Montanhas como
Casulos de pedra como
Vultos de cócoras
Sentinelas agachados
Aguardando sob
A superfície da terra
Prestes a arrebentar o
Gentil manto
A rasgar o encanto
Da calmaria
A qualquer sinal
Aguardando e
Quando a terra urra
Todo o mundo
Assistindo televisão
Acha que é aeronave
Cumprindo a sina
E que as montanhas dormem
Que elas têm sonhado
Desde o começo do mundo
sábado, 5 de maio de 2007
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Amaríssimas
As feições do homem
Que pinta o teto da capela.
Respinga do alto
Rubro de cádmio, azul de cobalto,
E o rosto do homem torna-se
Em si uma paleta.
Pigmentos sangram flores no gesso molhado.
Mundos se deslocam sob os andaimes.
Rangem os esteios, estalam as amarras
E quantos contos outrora doces
Agora se debatem na tinta e na água.
Plangentes e persistentes.
Sobre o altar,
Feixes e tendões, máquinas de músculos,
Bocas e bocas urrando silêncios.
Um emaranhado de corpos retorcidos
Num terror extasiado.
Um juízo final levantado da têmpera.
Uma gotícula de suor escorre
Pela fronte, o filete
Faz arder um olho entrecerrado.
Faz-se um deus de zarcão e alcaiade.
Mas que outro deus é esse
Aguardando no peitoril?
Em era de guerra
Mesmo em capela
Pinta-se guerra.
NY, maio de 2007
quarta-feira, 2 de maio de 2007
terça-feira, 1 de maio de 2007
Medrar por entre verdes
Saias, serpentinas samambaias.
Sombras densas pisando sombras leves.
Um monte de coisas frondosas
E fulgurosas, copas de árvore,
Carpetes de musgo, coisas que se
Agarram e se entreabraçam.
Um denteio de laca num espichar de
Pescoço. Eis tudo o que eu quero.
Um embrulho de folhas, redes de eras,
Dedos de endro adentrando pela boca.
Eis tudo o que eu quero,
Ninho húmido em terra fofa.
NY, maio de 2007
domingo, 29 de abril de 2007
Tem dias que a poesia me pára e me preenche.
Tem horas que ela me vara e me esvazia.
Uma maré medonha.
Um acorde de bandolim.
A lua se aproximando e se distanciando,
Inchando e desinchando
O humor dos meus olhos,
Todo o conteúdo das minhas células.
Eu te digo: Tudo dentro de mim eu ponho a serviço
Da palavra, e mesmo assim nunca sei dizer
Quando ela me quer bem.
Ora cataplasma, ora ferida, ora gume de aço,
Ora mão tosca que empunha a espada,
Ora mão fina que me deita o curativo,
Ora a dor em si: palavra despida de sons.
Como e quando dizer, aqui termino eu e
Começa ela? Se já nem sei bem
A quem pertencem nossos nomes.
NY, abril de 2007
quinta-feira, 26 de abril de 2007
terça-feira, 24 de abril de 2007
Folheando o Livro
Das Infinitas Coisas Que Não Me Acontecerão
Eu estudo tabelas, gráficos halucinantes
Das trajetórias que não seguirei, de veredas que
Não ousarei seguir, de trilhas e autoestradas que
Não terei tempo de seguir ou que não me serão
Permitidas (em hipótese alguma).
Está tudo bem mapeado,
Minuciosamente pesquisado.
Eles realmente se empenharam. Tamanha geniosidade!
Assim que fechar o livro e repor na estante
Eu tenho que me lembrar de esquecer
Que por um instante soube
O que não há de me acontecer.
NY, abril de 2007
segunda-feira, 23 de abril de 2007
Miolo
Mas que miolo tenro
Tão tenro e lasso este tutano
Que ao menor contato com o mundo
Brota natas de púrpura e verde
Por baixo das armaduras de bezouro
Dos engonços das mileuma engenhocas
As amolecidas gemas mal se agüentam,
Se arrebentam
Quão fútil cada
Quebradiça carapaça
Tão tenro te fizeram este teu:
Coração a céu aberto.
Miami, abril de 2007
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