Perder é fácil-- não chega a ser
Nenhuma desgraça.
É tão fácil perder que não há ninguém (ninguém)
Que não o faça.
Perder as chaves, a casa, o namorado--
Perder a hora e a cabeça:
Cada perda dói, às vezes demora,
Mas dizem (e é certo)
Que tudo passa.
Mas algumas perdas são tão perdas
Que mereciam outro nome.
Ou: o silêncio.
Essa perda (por que me faltam palavras?)
Não fere a alma-- ela
Te esgarça.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Carta sobre a leveza (para A.)
Caro amigo.
Andei pensando.
Se você se desfizer de todo o peso que carrega
Levantará vôo e sobrevoará a cidade
Feito um padre suspenso por uma penca de balões de festa
E teu vôo terá sido sem sombra de dúvida
16 minutos duma leveza extasiante
(Seguidos dum fim indecoroso em meio a um emaranhado de cordas
Num leito de borracha colorida boiando a tres leguas do cais do porto.
Te conto, amigo querido, que
Aos meus 27 anos de idade,
No interior de um país árido
No meio duma estória que ainda se desdobra
E que de tão complicada ficará sempre para outra vez,
Cheguei à conclusão que o desafio,
Na verdade, consiste em saber:
Amarrar a cada pé uma pedra
Atar a cada braço uma bigorna
Levantar sobre cada ombro uma viga espessa
Equilibrar no alto da cabeça
Cordilheiras e cordilheiras.
E mesmo assim
Correr sob céus estrelados
Sem duvidar que a sua consciência, enquanto leve,
Te permitirá carregar
Cada fardo que encontrar
E levar no coração, com leveza
Todo -- repito -- todo o peso deste mundo.
Caro A. Suponho que você tenha nascido
Moço de fretes. Leveza is not your business.
Carrega então os teus pesos
Com alegria.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Queria muito
Queria muito não te amar.
Ou pelo menos, por tanto te amar
Saber dizer:
-- Te amo.
Em vez disso,
Eu me engano.
Por dentro eu falo,
Por fora me calo,
Por ora me dano.
Ou melhor ainda:
Finjo que não sei
(E não ouso saber)
Que te amo.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Tens a estrutura
Fina e suave.
Depois de tantos anos
As coisas assim
Ainda me enganam.
Uma curva dócil
Um toque leve
Palavras macias
Tomo nisso tudo
O viço pela arte,
Creio, e me deixo crer,
E me entrego como quem
Se revira e evazia:
Aqui me tens
Boca
lábios
entranhas,
Toma. Faz de mim
O que bem queres,
E tudo só
Porque me pareces gentil
E isso me move.
Porque tens a estrutura
Tão fina e suave.
Desengana-me
Pois.
Ya no (de Idea Vilariño)
Ya no será
ya no
no viviremos juntos
no criaré a tu hijo
no coseré tu ropa
no te tendré de noche
no te besaré al irme
nunca sabrás quién fui
por qué me amaron otros.
No llegaré a saber
por qué ni cómo nunca
ni si era de verdad
lo que dijiste que era
ni quién fuiste
ni qué fui para ti
ni cómo hubiera sido
vivir juntos
querernos
esperarnos
estar.
Ya no soy más que yo
para siempre y tú
ya
no serás para mí
más que tú. Ya no estás
en un día futuro
no sabré dónde vives
con quién
ni si te acuerdas.
No me abrazarás nunca
como esa noche
nunca.
No volveré a tocarte.
No te veré morir.
(1958)
quinta-feira, 16 de abril de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
Resposta
E de isto somos feitos
De todas as máguas do mundo
Uns mil defeitos
Da negra boca da noite
De onde brotam
Colunas de cinzas
Da noite brava
As línguas-lava
E no entanto
Forrados os corações
(Ora praga, ora prenda:)
A mais tenra renda.
De todas as máguas do mundo
Uns mil defeitos
Da negra boca da noite
De onde brotam
Colunas de cinzas
Da noite brava
As línguas-lava
E no entanto
Forrados os corações
(Ora praga, ora prenda:)
A mais tenra renda.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Quanta coisa vi neste mundo
Que não cabe no coração.
Vi torres de vento brotando no leito da cidade.
Contei os homens e suas catedrais.
As relvas de feltro. Maquinarias
infernais.
Capsula indocil!
Confesso: Queria ter a pele feito fibra de côco.
Em vez disso quando me nasci
Vestiram-me da cabeça aos pés
Com pelica de nêspera.
Que não cabe no coração.
Vi torres de vento brotando no leito da cidade.
Contei os homens e suas catedrais.
As relvas de feltro. Maquinarias
infernais.
Capsula indocil!
Confesso: Queria ter a pele feito fibra de côco.
Em vez disso quando me nasci
Vestiram-me da cabeça aos pés
Com pelica de nêspera.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
sábado, 12 de janeiro de 2008
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Hilda.
Herdei te ti
um gume fino e amargo.
Fincado
no torax
um feixe de desejos.
Reles
latejantes
relampejos.
Cada gota de vinho
um leito.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
No aniversario do Descobrimento
Coroam este ceu de noite
Outrora tao sereno
Cinquenta margaridas de polvora.
Ai esquecimento, ai limpido veneno--
Quanta flor plantada
Em tumba errada.
1997
Descaminho
Repare bem, que esta
E a ultima parada deste trem.
Aqui travam-se as rodas;
Dissipa-se a fumaca num gordo suspiro,
E cessa o canto sofrego da maquinaria.
A fornalha exhausta cospe uma faisca,
Se apaga, e
Se enfria.
Note bem:
Nao ha mais passageiros neste trem.
No forro dos bancos reluz
O inchaco mudo do abandono.
Apagaram-se os dedos nervosos
Do padeiro atrasado; a sandalia do menino
Que prendeu o dedo na janela; as pregas da
Saia da menina assanhada.
Mais alem, trilhos virgens furam a noite.
Mas este trem fica por aqui,
Travado no nunca,
Em meio-caminho.
A primeira gravura
Colher a figura
Com docura.
Nem sempre o cobre
Pede violencia. Mas
Quando esta chega,
Ja na primeira gravura,
Ha que saber colhe-la com os olhos,
Doma-la com a mao.
E guardar a faisca
No chao da boca.
Engolir seco, e talhar
A chapa com gana e
Fingida ternura.
1997
Onca
Voce so me rastreja
Porque conhece o proprio corpo,
Mas nao sera sempre assim.
Um dia tudo isso, cabeca, coracao e vento
Lhe parecerao impedimento, e perderas
A docura violenta que te guia. Mesmo
A pele esguia te pesara sobre os ombros --
Capa chumbada como o ar que se parte,
Endurecido. A tua danca ja nao correspondera
Ao teu desejo minucioso --
Ficaras pra sempre vizinho da perfeicao,
Perto o bastante para doer sem sangrar.
E o tempo -- rato, anjo, serafim --
Te roendo ate o fim.
1997
Antes da extincao das freiras
Pouco antes da extincao das freiras
Havera grande comocao nos conventos do pais.
Janeloes ha muito travados reabrirao,
E feixes de velhinas secas e pasteurizadas
Chorarao um lamento unissono, gutural.
Havera tambem ameacas, uns e outros
Bradando Cristos talhados feito finas adagas,
Rogando pragas em nome de Deus. Algum
Politico sensibilizado acionara a maquina publicitaria. Choverao
Panfeltos, intimidacoes. Nos chas da meia-tarde,
Madrinhas perfumadas evitarao o assunto, constrangidas.
Enquanto isso as mocas da cidade, vestidas de vermelho,
Pitarao alegres seus cigarrinhos mentolados.
Quando baixarem da colina o ultimo caixao,
Havera cinco exatos minutos de silencio.
Todos se benzerao, e entao recomecara
O baile suado das grandes cidades, onde vez ou outra
Alguem suspirara por um passado enterrado
Nalgum outro esquecimento.
1997
A prosa-poema
A prosa-poema e o maior dilema
Da literatura contemporanea.
Ninguem conseque solucionar o tal problema.
Intelectuais e beletristas se abatem
Para alcancar uma definicao.
Chovem saraivadas de tiros
No Pequeno Trianon.
Vez ou outra despenca da varanda
Algum fardado Imortal.
Comparecem todos ao Funeral.
Laureiam entao o ilustre sucessor
E retornam suando ao terrivel tema
Desta tal prosa-poema.
1997
Museu
Todo o feitio da foice, da chuva, da bota.
As costuras do teu rosto,
Essa boca que se desfia,
Duas maos empedradas sangrando argila
E essas temporas toscas e muradas--
Tudo isso me lembra mundos
Que nunca vivi.
Mas as vezes eu acho
Que o fim das coisas
E onde elas realmente comecam.
A sola da bota.
Onde voce tombou, misterio, eu nasci:
Ali todo intervalo se contrai,
Porque o teu rosto --
Retrato, relato, museu --
Escorre no tempo
Desagua no meu.
1997
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
As silabas vao acumulando no canto da boca,
Peixes na rede,
Fugidias e escorregadicas, vez ou outra
Retorcendo-se em palavras. Assim acorda a
America do Sul.
Ditadores brotam e medram pelo continente, Eta
Estirpe impertinente.
Ha que estar atento.
Carrascos espalham-se ao vento.
Eles calcarao botas de verniz, ternos riscados a giz.
Sempre havera outro momento.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
terça-feira, 3 de julho de 2007
Julho atropelou junho e me achou na Africa.
Um ar seco sibila
Serpentino narinas adentro
e estala nos pulmoes.
Tudo isso me lembra, quem diria,
A caatinga de Goias.
Sois desimpecilhados queimando
Planaltos altos e suas plantas asperas.
Mas aqui sou mulher branca
Como nunca se foi no Distrito Federal.
E como me olham os que me passam.
Tem coisas que eu devo carregar com os olhos
Que nem sei bem o que elas sao.
No fundo no fundo no fundo no fundo no fundo no fundo no fundo no fundo no fundo
(Quero dizer mas engasgo)
Sou azul de tao preta que eu sou.
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